O pai é anestesista. A mãe gere tudo e todos com mão firme. E nos verões, em vez de praia, a miúda ajudava o pai a montar um barco no quintal. Pregos, esquemas de montagem, peças que tinham de encaixar. Não era brincadeira. Era, sem ela saber na altura, treino. Essa miúda é hoje Maria João Correia, a arquiteta por detrás do Segmento Urbano, um atelier fundado em 2016 que trabalha o que acontece antes de existir um projeto. Leitura de terrenos, viabilidade, legislação. Chamaram-lhe Land Staging e transformaram isso em método.
Mas o percurso até aqui não foi em linha reta. Antes de acabar o secundário já andava por Inglaterra. Escolheu Londres para estudar arquitetura quando tinha vaga no Porto. Não foi por capricho. Foi porque queria perceber como funcionam os sistemas por detrás dos edifícios, não apenas como se desenham. 

Vinte anos depois, o que a distingue não é o portfólio. É a pergunta de partida. Enquanto a maioria dos ateliers começa pelo programa funcional ou pela estética, Maria João Correia, "estratega do território", começa por outra coisa: "como é que queremos que alguém se sinta aqui?". Chama-lhe "arquitetura do ser". O projeto Echoes of the Void, que em 2025 ganhou um AFX no Mundial da Arquitetura e explora precisamente isso: a ideia de que o espaço pode ter um efeito quase terapêutico em quem o habita.
Maria João Correia, "estratega do território", começa por outra coisa: "como é que queremos que alguém se sinta aqui?". Chama-lhe "arquitetura do ser".
Atmosfera
AtmosferaSegmento Urbano
De onde nasce essa ligação entre o conceito e a realidade no teu percurso?
O meu pai é anestesista, sempre teve uma profissão médica com enorme pressão física e mental. Trabalhava muito. A minha mãe também, uma super líder. E o meu pai, nas férias, construía um barco. Portanto, parte da minha infância, no verão, foi sempre nesta ligação entre o conceptual e o real, desde comprar pregos até fazer esquemas de montagem do barco. Acho que, se calhar, vem daí a paixão por ligar o conceito à realidade.
E como é que desse contexto passa para o Segmento Urbano e para a vida adulta? 
Na vida adulta, eu sou de Guimarães, a cidade-berço. Ainda muito jovem, antes do 12.º ano, fiz alguns cursos de inglês em Inglaterra. E optei, no 12.º ano, por ter uma formação diferente do comum: estudei arquitetura em Londres. Entrei no Porto também, mas optei por Londres. Acho que essa vontade de fazer algo diferente vem daí.
O Segmento Urbano nasce em 2016, da necessidade de responder a um projeto grande que ganhámos na altura. E nasceu assim o primeiro projeto, um condomínio residencial.
Fala-se aqui de um conceito interessante: o Land Staging. O que é exatamente e porque é tão relevante?
O Land Staging é um conceito, uma metodologia que nós desenvolvemos. O nome surge precisamente para quebrar um pouco com o habitual, as pessoas ouvem falar de Home Staging, mas o Land Staging tem a ver com terrenos.
Nasce de uma metodologia que fomos desenvolvendo ao longo de 20 anos, baseada em duas perguntas muito simples que nos faziam sempre: “o que é que dá para fazer aqui?” e “quanto é que pode custar?”. 
Com o tempo, percebemos que não somos apenas arquitetos, somos quase estrategas do território. Conseguimos ler com facilidade o que é possível em termos de legislação, cruzamento de informação, etc., e transformar isso numa metodologia clara que explica o potencial de um terreno, quanto pode custar e qual o processo burocrático necessário para atingir esse objetivo.
Metamorfoses
MetamorfosesSegmento Urbano
Ao longo destes 20 anos, há projetos que tenham sido particularmente marcantes? 
Sim, destacaria três. Um foi uma escola modular chamada CISPOD, desenvolvida para Luanda, no âmbito do Programa Nacional de Alfabetização. Foi também a primeira vez que fomos finalistas do Mundial de Arquitetura, em Singapura, em 2012.
Outro projeto foi o Edifício Metamorfoses, a sede de uma empresa de construção baseada em conceitos de meritocracia e integração de várias funções.
O Echoes of the Void, distinguido em 2025 com um AFX no Mundial da Arquitetura, é um projeto que representa aquilo que nos interessa investigar: a capacidade da arquitetura de fazer as pessoas sentirem-se melhor. Falamos quase de arquitetura terapêutica ou curativa. Estudos recentes mostram que o espaço influencia profundamente o bem-estar das pessoas, aquela ideia de que “architecture can heal”. É isso que exploramos neste projeto, que é muito importante para o nosso atelier e tem tido um impacto significativo.
Isso liga-se ao conceito de “arquitetura do ser”. O que significa exatamente?
A arquitetura do ser é a forma como trabalhamos. Não fazemos arquitetura como um objeto urbano isolado, mas pensamos na arquitetura a partir da forma como as pessoas se sentem dentro de um espaço. O espaço deve ser pensado para a função e para quem o vai habitar, não para aquilo que eu gosto ou que qualquer arquiteto gosta. Não é arquitetura de autor no sentido tradicional. É uma arquitetura do autor para a pessoa.
Trouxeram também dois conceitos: Build Lab e Gateway.
O Build Lab é uma forma de aproximar a aprendizagem do mundo real. Funciona quase como uma escola, ainda não formalmente, que procura colmatar o gap entre a formação tradicional e a realidade profissional no setor da arquitetura, engenharia e construção. O Gateway é uma iniciativa criada para empresas de trabalho temporário, com o objetivo de estruturar melhor a ligação entre pessoas e necessidades do setor.
Hero
HeroSegmento Urbano
Olhando para o futuro, quais são as prioridades do Segmento Urbano?
Queremos continuar a inovar no setor da arquitetura, engenharia e construção. Por um lado, através do Build Lab, formando pessoas para o setor. Por outro, através do landstaging, mitigando risco. Acreditamos que muitos dos problemas no setor poderiam ser resolvidos antes da fase de projeto. Por isso, o nosso foco é reforçar a estratégia pré-projeto (leitura territorial, enquadramento e planeamento) e, ao mesmo tempo, formar profissionais que o setor precisa.
Existe também uma preocupação clara com legado. Como é que isso se materializa?
Sim, esse é o nosso propósito: dar ao mercado e deixar legado. Ao longo de 20 anos, chegámos a muitas conclusões sobre o que funciona e o que não funciona. Transformámos isso em método e queremos contribuir para um setor mais profissional e competente. Todos vivemos e trabalhamos em edifícios, por isso eles devem refletir cada vez mais aquilo que somos e aquilo que precisamos, para sermos mais felizes e mais saudáveis, física e mentalmente. E a arquitetura tem um papel enorme nisso.

Fonte: "A arquitetura do ser não impõe mas revela a identidade do local e do cliente" — idealista/news
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