Com uma equipa de cerca de 70 profissionais, a Broadway Malyan Portugal é liderada por Margarida Caldeira. Em entrevista ao idealista/news, a arquiteta portuguesa identifica a habitação como um dos maiores desafios do país. “Há uma forte carência de habitação em Portugal, transversal a todos os segmentos. A mais urgente de suprir é, sem dúvida, a habitação permanente para jovens e famílias de classe média.” Mas, como defende, o conceito de habitação hoje vai muito além da resposta tradicional: modelos como o coliving, o flex-living, as residências para estudantes ou seniores e as branded residences começam a ganhar espaço num mercado ainda pouco explorado a nível nacional, mas com procura crescente.
margarida caldeira
Margarida Caldeira / idealista/news
"Falar de habitação hoje é muito mais do que resolver um problema quantitativo. Há mobilidade, trabalho remoto, novas estruturas familiares, e isso exige novas respostas", aponta a especialista que soma vários prémios e nomeações na área da arquitetura e urbanismo.
Instalado na emblemática Estação do Rossio, edifício no centro de Lisboa cuja reabilitação assinou, o atelier de arquitetura Broadway Malyan celebra três décadas de atividade em Portugal. Foi em 1995 que a capital portuguesa foi escolhida para acolher o primeiro escritório internacional da empresa fundada no Reino Unido em 1958. "O que sempre nos guiou foi a capacidade de combinar visão global com sensibilidade local", destaca.
Num contexto em que, desde então, “tudo mudou” - e defendendo que agora “existem múltiplas formas de viver” face aos modelos tradicionais -, Margarida Caldeira acredita, no entanto, que há algo que permanece essencial e transversal: “os espaços que desenhamos têm impacto real na vida das pessoas e das cidades”.
Estação Rossio
Estação do RossioBroadway Maylan
Celebrar 30 anos em Portugal é um marco relevante. Como é que uma firma britânica fundada em 1958 se tornou um dos protagonistas do mercado nacional da arquitetura e do urbanismo?
A Broadway Malyan chegou a Portugal em 1995, num momento decisivo da sua expansão global, tornando-se o primeiro escritório internacional da empresa fora do Reino Unido. Hoje, olhando para trás, percebemos que esta presença não só consolidou o nosso percurso como contribuiu para transformar profundamente o contexto urbano português. Ao longo destes 30 anos, crescemos de duas pessoas num pequeno escritório de 12 metros quadrados (m2) para uma equipa de cerca de 70 profissionais instalada na Estação do Rossio, um edifício que, aliás, tivemos o privilégio de reabilitar.
Trabalhamos em mais de 15 países e temos projetos premiados em todos os continentes, desde masterplans urbanos em Londres, Manchester ou Dublin até empreendimentos residenciais e turísticos no Médio Oriente, América Latina e Sudeste Asiático. Mas essa visão internacional convive com uma sensibilidade local muito forte. É isso que tem permitido que o estúdio de Lisboa seja hoje um polo estratégico dentro da rede Broadway Malyan, apoiando simultaneamente projetos em Portugal, no Brasil, no Médio Oriente e na Ásia.
Tudo o que tem a ver com mobilidade tem a ver com a qualidade de vida das pessoas. E nós temos de pensar sempre nos nossos projetos tendo em conta as boas experiências que, enquanto arquitetos, podemos ajudar a criar e a melhorar.
Ao longo destas três décadas, quais foram os projetos que mais marcaram a presença da Broadway Malyan em Portugal?
A lista é longa, mas há alguns que se destacam. O primeiro grande projeto icónico foi o edifício Sony, no Parque das Nações, concluído em 1998. Representou uma viragem importante: estávamos no limiar do novo século e era quase como desenhar os “escritórios do século XXI”.
Sony
SonyBroadway Maylan
Outro momento emblemático foi a reabilitação da Estação do Rossio, que não só devolveu dignidade a um edifício negligenciado como melhorou drasticamente a experiência diária de milhares de utilizadores. Também a transformação do Aeroporto de Lisboa, ao abrir luz natural ao interior e reorganizar fluxos, é um exemplo da nossa capacidade de intervir em infraestruturas de grande impacto público.
Mais recentemente, destacaria projetos como o World of Wine, em Vila Nova de Gaia, hoje uma referência internacional em regeneração urbana, e os edifícios de escritórios Liberdade 201, em Lisboa, e Viva Office, no Porto. No turismo, inaugurámos sete hotéis só em 2025, o que fez deste setor 45% do nosso volume de negócios nos últimos dois anos.
Falou de mobilidade e da importância da experiência urbana. Qual é o papel da arquitetura nesse contexto?
Tudo o que tem a ver com mobilidade tem a ver com a qualidade de vida das pessoas. E nós temos de pensar sempre nos nossos projetos tendo em conta as boas experiências que, enquanto arquitetos, podemos ajudar a criar e a melhorar.
O vosso foco no residencial tem vindo a crescer. O que explica este reforço?
Há uma abordagem diferente hoje em dia, aquilo a que os ingleses chamam New Ways of Living. O residencial tradicional, aquele modelo clássico do “esquerdo-direito”, já não responde às necessidades atuais.
Há uma forte carência de habitação em Portugal, sobretudo para jovens e famílias de classe média. Mas falar de habitação hoje é muito mais do que resolver um problema quantitativo. Há mobilidade, trabalho remoto, novas estruturas familiares, e isso exige novas respostas. Modelos como o coliving, o flex-living, as residências de estudantes ou seniores e as branded residences estão a emergir precisamente por isso. O mercado português está agora a começar a explorar estes formatos, mas a procura já existe e é significativa. Por isso, antecipamos que o residencial represente cerca de metade da atividade da Broadway Malyan em Portugal em 2025.
Modelos como o coliving, o flex-living, as residências de estudantes ou seniores e as branded residences estão a emergir. O mercado português está agora a começar a explorar estes formatos, mas a procura já existe e é significativa.
Fábrica 1921
Fábrica 1921Broadway Maylan
Que projetos residenciais estão atualmente em curso?
Há vários projetos a destacar. O Garridas, em Benfica, o Nama, em Carcavelos, e as Elayne Residences, no Campo Pequeno e em Cascais, reforçam a nossa aposta no segmento das branded residences. O Mima, no Parque das Nações, combina habitação, hotelaria e apartamentos turísticos, traduzindo a tendência para modelos híbridos e multifuncionais. Estamos também a desenvolver projetos de grande escala no Porto, em Vila Nova de Gaia, em Lisboa e nos concelhos limítrofes, bem como no Algarve, cobrindo desde o segmento prime e ultra-luxury até empreendimentos destinados à classe média, em formatos tradicionais ou híbridos.
Como se materializam estas “novas maneiras de viver”?
A componente de serviços e espaços partilhados está a ganhar peso. As casas tendem a ser mais compactas, mas são complementadas por valências integradas que promovem bem-estar, conveniência e qualidade de vida: cowork, ginásios, lounges, áreas exteriores, espaços sociais e infraestruturas comuns que reduzem custos individuais e fortalecem o sentido de comunidade. Há também uma tendência crescente para o indoor-outdoor, ou seja, para a continuidade entre interior e exterior. A possibilidade de todos os andares terem varandas ganhou força depois da pandemia, refletindo a necessidade de mais luz natural, ar livre e espaços de transição que ampliem a experiência quotidiana das habitações.
Quanto à sustentabilidade e eficiência energética, que papel desempenham nos projetos residenciais?
sustentabilidade, para ser verdadeiramente sustentável, tem também de o ser no plano financeiro. Esse é o primeiro ponto. Mas hoje é igualmente uma tendência de mercado e uma exigência real: os projetos só são financiados se cumprirem determinados níveis de desempenho ambiental, e aquilo que começou por surgir sobretudo nos edifícios de escritórios passou, de forma muito evidente, para o residencial. Além disso, os regulamentos em vigor já dão resposta a muitos princípios de sustentabilidade. Ao cumprir a legislação, estamos automaticamente a garantir condições essenciais, desde o conforto térmico até à utilização de cerca de 10% de energias alternativas. Tudo isto contribui para edifícios mais eficientes, mais confortáveis e mais preparados para responder aos desafios ambientais e sociais dos próximos anos.
Fábrica 1921
Fábrica 1921Broadway Maylan
O que distingue a forma como a Broadway Malyan trabalha em Portugal?
O que sempre nos guiou foi a capacidade de combinar visão global com sensibilidade local. Acompanhámos grandes transformações do imobiliário português com inovação, talento e uma enorme capacidade de adaptação. Trouxemos metodologias internacionais, alimentadas por investigação contínua e partilha entre equipas espalhadas pelo mundo, mas sempre com um profundo sentido de lugar. Essa metodologia anglo-saxónica, a utilização de boas práticas e de research permanente ajudam-nos a estar um pouco na vanguarda das soluções. Portugal é, dentro da Broadway Malyan, um dos estúdios mais considerados, algo que se reflete também nos concursos internos que ganhamos regularmente. Hoje, olhamos para o futuro com a mesma energia com que iniciámos este percurso. Queremos continuar a criar projetos com impacto real na vida das pessoas e das cidades. Com 30 anos de história em Portugal e quase 70 de experiência global, sentimos que estamos apenas a iniciar uma nova etapa de crescimento, mais exigente, mais sustentável e mais alinhada com as múltiplas formas de viver que estão a moldar o século XXI.
As casas, cada vez mais, tendem a ser mais compactas, mas são complementadas por valências integradas que promovem bem-estar, conveniência e qualidade de vida: cowork, ginásios, lounges, áreas exteriores, espaços sociais e infraestruturas comuns que reduzem custos individuais e fortalecem o sentido de comunidade.
E como imagina os próximos 10 anos?
Daqui a 10 anos vamos assistir a um nível muito maior de construção off-site. Este será um passo decisivo para o setor, porque vai trazer maior qualidade na execução e, à medida que surgirem mais players no mercado, os custos deverão começar a baixar ou, pelo menos, a aproximar-se dos da construção tradicional. É uma evolução que ainda está a dar os primeiros passos, mas que se tornará cada vez mais presente na próxima década. Teremos também uma nova oferta de formatos habitacionais, mais diversificada, mais qualificada e mais alinhada com as mudanças profundas na forma como vivemos. Estes novos modelos, mais flexíveis, mais eficientes e mais integrados, deverão contribuir para uma experiência de habitar mais equilibrada e, espero eu, para um maior nível de felicidade. No fundo, é isso que está no centro da arquitetura: criar espaços que melhorem a vida das pessoas.

Fonte: Margarida Caldeira: "A nossa missão é criar espaços que melhorem a vida das pessoas” — idealista/news
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